Ouvidor 63, ocupação e arte no coração de São Paulo

Entre as desbotadas paredes do centro histórico de São Paulo se destacam os toldos laranjas da rua Ouvidor, número 63. É o refúgio de uma centena de artistas que decidiram ocupar um edifício, construir suas casas e criar seu próprio […]

Rua Ouvidor, 63. Foto: EFE/Fernando Bizerra Jr.

Entre as desbotadas paredes do centro histórico de São Paulo se destacam os toldos laranjas da rua Ouvidor, número 63. É o refúgio de uma centena de artistas que decidiram ocupar um edifício, construir suas casas e criar seu próprio centro cultural.

Neste prédio abandonado desde os anos 80 imperam as cores vivas em cada um de seus 13 andares, uma espécie de rebelião contra o tom acinzentado de São Paulo.

Ritmo de arte e tranquilidade

O ritmo dentro do prédio, ao contrário da capital, é pausado. Apenas se ouvem os gritos de algumas crianças brincando. Seus pais chegaram a Ouvidor 63 fugindo da vida frenética paulistana.

Ouvidor, 63. Foto: EFE/ Fernando Bizerra Jr.

Ouvidor, 63. Foto: EFE/ Fernando Bizerra Jr.

Ao abrir a porta principal se chega a um amplo vestíbulo, onde há uma estante construída com tijolos de cimento empilhados sobre o buraco deixado por dois elevadores sem funções. Ao fundo, uma escada de pedra conduz os inquilinos até suas casas.

A porta do terceiro andar está aberta e nela há uma advertência escrita em roxo: “Satanás habita esta casa”. As paredes descascadas estão cobertas por lenços pintados à mão, por quadros e por um lençol que serve de projetor.

O solo é de tacos de madeira em tons escuros, mas faltam algumas peças do assoalho. Há plantas bem cuidadas, uma vidraçaria de grandes dimensões, obras de arte e sofás desbotados espalhados por sala de quase cem metros quadrados.

Nesse andar vivem quatro pessoas, todos músicos. Também há o andar dos mágicos, a dos desenhistas gráficos, dos artesãos, da ioga

Um ar “underground” envolve o quarto de Rebel, um dos músicos do Ouvidor 63. A luz é tênue, as paredes de seu quarto estão repletas de cobertores para isolar o barulho dos ensaios, e sobre sua cama há uma manta rosa das princesas Disney.

O músico Rebel. EFE/Fernando Bizerra Jr,

O músico Rebel. Foto: EFE/Fernando Bizerra Jr,

Rebel chegou ao edifício em 2014, meses depois de a ocupação começar. Nela, ressaltou, não há líderes. As decisões são tomadas horizontalmente, por votação.

“As pessoas estão ocupando algo que é do Estado. Estamos dando uso a algo que está parado”, contou, sentado no sofá do salão.

Portas abertas para viver e criar

Dois andares acima – “o do circo” – há um venezuelano e um argentino praticando malabarismo em um quarto que cheira a comida. São mochileiros, estão no Brasil de passagem e foram amparados por alguns meses no Ouvidor 63, um edifício que começa a ser conhecido entre os viajantes com poucos recursos.

“As pessoas que vivem neste edifício são artistas e têm vontade de ensinar os que chegam. Mas se não se empenha, não vai aprender, não é possível ir de um edifício cheio de artistas e não aprender a fazer arte, malabares, a desenhar, o que seja. Trabalhamos como artistas e a meta é progredir”, afirmou o argentino Fabricio Selano, enquanto soa ao fundo uma canção de “Resistência suburbana”.

Um dos artistas que vivem no prédio. Foto: Fernando Bizerra Jr.

Um dos artistas que vivem no prédio. Foto: Fernando Bizerra Jr.

Pelas estreitas escadas do edifício sobem e descem todos os dias criadores de joias, tatuadores, estilistas, pintores, guitarristas, dançarinos, fotógrafos e “multiartistas” que encontraram no Ouvidor um espaço para viver e para criar.

É o caso de Alexa Gomes, que desde 2014 vive com sua filha de seis anos em um quarto no quarto andar. Ela tem poucas coisas, algumas roupas, dois colchões e uma geladeira. E uma parede pintada de azul.

“Aprendi a viver de forma autônoma, a me autogerir, a não ser escrava do sistema para conseguir comida ou roupa. É o desapego”, ressaltou.

No edifício também há uma horta orgânico, um amplo terraço com vista panorâmica de São Paulo, muitas cores e uma porta de metal com uma mensagem para seus inquilinos: “Portal para uma realidade ilusória. Lembre-se do caminho de volta”.

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Publicado em Cultura     Destinos

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