Etiópia, a alma da África

Na Etiópia convivem diferentes paisagens, línguas e culturas. O país africano, berço da humanidade, conquista o turista entre surpreendentes igrejas ortodoxas escavadas em rocha, montanhas e coloridas tribos que guardam cuidadosamente tradições milenares.

Cerimônia ortodoxa em uma igreja de Lalibela. Foto: EFE/Natalia Otero

A Etiópia é um país de contrastes difícil de emoldurar com palavras. Imagine terras nas quais convivem mais de 80 grupos étnicos, em que são falados mais de 10 idiomas, com paisagens de savana e manadas de zebras. Imagine também altas montanhas verdes, igrejas escavadas em rocha conectadas por túneis e passarelas, e trilhas virgens cruzadas por apenas poucas dezenas de pessoas. Tudo isso é a Etiópia.

O país africano foi declarado pelo Conselho Europeu de Turismo o melhor destino de férias em 2015. Está situado no Chifre da África e tem em torno de 95 milhões de habitantes, segundo dados da Economist Intelligence Unit.

Sacerdotes na igreja de São Jorge. Foto: EFE/Natalia Otero

Sacerdotes na igreja de São Jorge. Foto: EFE/Natalia Otero

Os principais voos internacionais chegam pela capital, Adis Abeba, de quase 3,5 milhões de habitantes.

Cihan Kara, da Turkish Airlines, destacou que embora a alta temporada para viajar seja entre os meses de abril e outubro, “as características topográficas do país, que vão desde montanhas a desertos, permitem que os viajantes se desloquem durante todo o ano, dependendo da região”.

Uma viagem no tempo

O tempo transcorre em outro ritmo na Etiópia. O país adotou de forma oficial o calendário ortodoxo. Atualmente estão em 2009 e seus anos têm 13 meses.

Em alguns pontos, os instantes parecem eternos e em outros, as horas são efêmeros segundos. Lalibela é um desses lugares. Localizada na região de Amhara, no norte do país, a cidade leva o nome do rei que a criou e é visita obrigatória para os viajantes. Até o jornalista polonês Ryszard Kapuscinski se rendeu a sua magia, como se lê em “Ébano”, livro que reúne 29 crônicas do mestre dos jornalistas na África.

Cerimônia ortodoxa em uma igreja de Lalibela. Foto: EFE/Natalia Otero

Cerimônia ortodoxa em uma igreja de Lalibela. Foto: EFE/Natalia Otero

Lalibela, conhecida também como a pequena Jerusalém ortodoxa, esconde 11 maravilhas que, segundo conta a lenda, foram construídas por homens e anjos lado a lado: quase uma dúzia de igrejas monolíticas escavadas em rocha que superam espetacularmente outros templos erguidos de forma tradicional.

Igreja de São Jorge, em Lalibela. Foto: EFE/Natalia Otero

Igreja de São Jorge, em Lalibela. Foto: EFE/Natalia Otero

Seus criadores não usaram materiais externos em sua construção, nem tijolos nem blocos de pedra. O espaço negativo, esculpido na rocha por milhares de homens durante 24 anos no século XIII, desenha edifícios avermelhados de diferentes tamanhos e formas.

“Foram construídas por Deus” parece ser a resposta mais usada entre os guias turísticos diante da curiosidade do visitante sobre os aspectos técnicos dos templos.

Todos são diferentes e os mais conhecidos são Biet Medhani Alem (Salvador do Mundo), a 12 metros de profundidade; e Biet Ghiorgi (São Jorge), em forma de cruz.

O teto da igreja de São Jorge. Foto: EFE/Natalia Otero

O teto da igreja de São Jorge. Foto: EFE/Natalia Otero

Para entrar neles é preciso se registrar e pagar uma entrada de US$ 50, válida para quatro dias. Se quiser um guia, o preço da visita pode dobrar.

Oração na rocha

As orações na língua histórica ge-ez, rítmicas, potentes e hipnóticas, convidam a entrar no templo Biet Medhani Alem. Quase não há luz, a umidade do carpete vermelho que cobre o solo desigual sobe pelos pés descalços e o penetrante cheiro de incenso misturado com suor bate o olfato com força.

Em uma esquina, separada por uma cortina do resto da igreja, uma mulher extrai de um fosso uma espécie de joelho e, tombada no solo, começa a fazê-lo rodar por sua anatomia em uma espécie de transe buscando curar corpo e alma. Os cantos não param nem diminuem de intensidade.

Só os insistentes cliques das câmaras de alguns turistas rompem o encanto da cena.

Homens aproveitam a sombra em uma igreja ortodoxa em Lalibela. Foto: EFE/Natalia Otero

Homens aproveitam a sombra em uma igreja ortodoxa em Lalibela. Foto: EFE/Natalia Otero

Ao sair, se esquivando dos devotos que acompanham as rezas acomodados no solo, é necessário jogar um último olhar para memorizar os quadros amontoados verticalmente contra as paredes: as túnicas e os gorros de algodão branco usados pelos fiéis e a tênue luz que se cola furtiva por uma das pequenas janelas que permanecem abertas.

Religião, castelos e lendas

Após visitar Lalibela, é impossível não perceber a importância da religião na sociedade etíope. Cerca de 60% dos habitantes são cristãos e, ao contrário do que se pode pensar, isso não é consequência direta do colonialismo europeu no continente africano. O reino de Aksum abraçou o cristianismo como religião oficial no século IV. Foi o segundo território no mundo a fazê-lo, após a atual Armênia.

Gondar, que junto com Lalibela e Bahir Dar forma o principal triângulo turístico em Amhara, é conhecida como a Camelot etíope. Os castelos medievais e as colinas verdes surpreendem o turista.

A impressionante cidade fortificada de Fasil Ghebi, de 900 metros de perímetro, foi a residência do imperador Fasilides, que mandou construí-la no século XVII inspirado na arquitetura árabe e indiana.
Após a chegada dos jesuítas, como explicou a Unesco, metamorfoseou sua aparência adotando tinturas do barroco europeu.

Aksum é a última parada das viagens organizadas ao norte da Etiópia. Situado em Tigray, uma região que faz fronteira com a Eritreia, atrai beatos, curiosos e, certamente, fãs de Indiana Jones.

A Arca da Aliança

Seus habitantes se vangloriam por proteger a mesmíssima Arca da Aliança que o intrépido arqueólogo Indiana Jones tomou dos nazistas no cinema.

Vários monges protegem o Tabot, arca que, diz a lenda, contém as tábuas de lei com os 10 mandamentos que Deus entregou a Moisés. À ela são atribuídos poderes de acabar com o mal, burlar leis físicas e vencer os mais ferozes exércitos.

Segundo a crença popular, após a destruição do Templo do Rei Salomão, a arca foi levada a outro lugar, nunca revelado. No entanto, os milhões de etíopes cristãos creem e defendem que ela chegou ao país três mil anos pelas mãos de Menelik I, filho da rainha de Sabá e do rei Salomão.

Um pároco guarda o cofre cuidadosamente noite e dia. É sua única obrigação e sua maior satisfação. Ninguém teve acesso ao Tabot e sua autenticidade é mais do que duvidosa. Mas um dia, advertem os cristãos da antiga Abissínia, o segredo será revelado ao mundo. Por enquanto nada indica que isso vá acontecer em breve.

Natureza espetacular

O Parque Nacional de Simien foi um dos primeiros lugares do mundo a entrar na lista dos Patrimônios da Humanidade, no fim da década de 70. As montanhas de Simien são uma das mais espectaculares paisagens da África, assim como a fauna. O lobo de Simien é o mais raro do mundo. Já o macaco gelada é comum no parque.

Harar é a quarta cidade santa do Islã. Ela tem 82 mesquitas, três delas do século X, e 102 altares. Harar historicamente foi um centro comercial, ligado por rotas comerciais ao resto do Chifre da África, a Península Arábica e, através dos seus portos, ao resto do mundo.

São inumeráveis rotas, paisagens, cerimônias e experiências na Etiópia. Opções muito diferentes entre si, que tem em comum a todas elas, desde as coloridas e pinturescas tribos nômades no sul até a comunidade ortodoxa no norte, a amabilidade de sua gente e o irrefreável desejo de se perder em sua cultura.

Mulher da tribo Geleb na fronteira com o Quênia. Foto: EFE/Pavel Wolberg

Mulher da tribo Geleb na fronteira com o Quênia. Foto: EFE/Pavel Wolberg

A Etiópia é como seu prato mais popular, wot com injera, uma espécie de torta feito com uma pasta fermentada de teff, cereal local, sobre o qual são colocados diferentes tipos de carne e vegetais. É simples, intenso, forte, cabem todas as cores, aromas e sabores para se perder. E um grande lugar no qual se encontrar.

Dados Básicos

A República Democrática Federal da Etiópia, antigamente conhecida como Abissínia, fica no Chifre da África, sem saída para o mar. Faz fronteira ao norte com Djibuti e Eritreia; ao oeste com Sudão e Sudão do Sul; ao sul com Quênia e Somália; e ao leste com a Somália. Sua moeda é o birr (US$ 1 equivale a cerca de 20 birr).

A geografia etíope se caracteriza por um grande planalto dividido por duas amplas cadeias montanhosas, atravessadas pelo Vale do Rift. No Lago Tana, no noroeste do país, nasce o Nilo Azul, o afluente mais caudaloso do Nilo. O clima é muito variado e está fortemente influenciado pelo relevo.

Foi o primeiro reino cristão do mundo, sendo uma monarquia de origem hebraica.

No contexto africano, a Etiópia viu ratificada sua posição como capital diplomática da África ao abrigar a sede da União Africana, e é um dos países com maior crescimento anual nos últimos dez anos.

Perto da capital Adis Abeba. Foto: EFE/J.L. Fernández Checa

Perto da capital Adis Abeba. Foto: EFE/J.L. Fernández Checa

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